When I Was Your Man

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Por @Rico_Correia

É incrível o tanto que falta de atenção, distração e insensibilidade são males que passam desapercebidos há alguns e quase não machuca durante muito tempo. São apenas pequenos esbarrões que bem diferente de tapas, socos e pancadas. Não dói de uma vez e passa aos poucos, mas machuca aos poucos, deixa vermelho, fere até que cicatriza e residem ali com uma lembrança clara e forte de algo que aconteceu e não passam mais.

São falhas tão absurdas, que mesmo percebendo e recebendo dicas, conselhos e indicações que não poderiam ser mais claras, elas são ignoradas e encaradas de forma leviana.

– Merda, eram atitudes tão simples, coisas tão pequenas que poderiam ter feito uma diferença tão grande..

– Vamos lá, nada disso é novidade. Está tudo aí dentro, tudo você já sente, tudo você já conhece, certo? Você só, por algum motivo, (que eu vou ignorar agora, não creio que algo assim exista) não demonstrou e sinceramente NÃO, só falar não adianta. Do fundo do meu coração se você não se tocou disso agora, se você não percebeu agora que a infinidade de sutilezas se juntaram em algo grande, seu imbecil, eu desisto de você.

-Mas eu sinto de verdade tudo isso aqui dentro e eu sempre fiz questão de falar.

– CARALHO, eu acabei de deixar claro, falar não adianta, você precisa mostrar. Vou explicar assim pra ver se você entende. Magia, ok? Em boa parte dos livros de fantasia magia é composta pelo que? Que tipo de componentes?

– Gestual, Vocal e físico.

– Exato! Encare o amor  como algum tipo de magia, e na verdade se existe algo que soa meramente parecido com isso no mundo é o amor, você precisa de todos os componentes para que esta magia der certo, precisa por nele sua voz, seus gestos e todos os componentes físicos que ela precisa pra ser realizada.

-Faz, sentido…

-Não, não faz, e não precisa fazer sentido, isso não é uma operação matemática, sentido não é necessário, sentimento sim, não precisa racionalizar isso, só sinta, se você quiser colocar isto dentro da sua lógica egoísta que põem você e sua folga..

– Mas…

– Não me contradiga. Você é sim uma das pessoas que mais egoístas e folgadas que nós conhecemos, pare e repense alguns segundos apenas.. só alguns e veja bem isso

– Você tem razão…

– Sentido, razão, lógica… PORRA, DÁ PRA PARAR DE USAR ESSAS PALAVRAS UM POUCO? Você acha que o que ela está pedindo é muito?

– Não.

– Você acha que o que ela está pedindo é difícil ?

– Não.

-Você acha que o  que ela está pedindo é demais e que você não conseguiria realizar?

– Não, claro que não, eu consigo fazer isto

-Ultima pergunta, ok? Você quer realizar isto?

– Muito, Eu quero de verdade ser a pessoa que ela merece.

– Por quê?

– Primeiro por que eu quero ser uma pessoa melhor, segundo por que ela merece e terceiro por que eu quero merecer ela.

– Humm enumerou as razões,  você continua muito lógico,  mas acho que o caminho é mais ou menos esse. Vamos fazer assim, deixa eu assumir mais vezes, ok? Fica ali no fundo calculando o que  você quiser calcular e para de se meter quando eu quiser fazer alguma coisa, que tal?

– Poderia funcionar!

– Ou não, mas neste caso, eu acho que não é o que ela espera mas talvez seja o que ela precise. Você tem uma boa memória quando você quer… lembra desta música?

– Sim, ela adora.

– É e como você se sente com quase todos versos dela fazendo todo o sentido já hoje?

– …

– Finalmente, consegui te fazer parar de responder, nesta musica ela pede 3 coisas extremamente simples, e são as mesmas que ela te pediu, pois tente resolver essa bagunça agora, antes que o resto da música faça sentido por completo.

Depois, de um longo tempo, mais do que o coerente, o coração ganhou uma disputa com o cérebro e as palavras mais sinceras saíram finalmente da pela boca.

– Me desculpa, dança comigo?

I Want to Break Free – Queen

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Por  @TaianAoki mais em Scrotos – Breja & Ressaca

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Dúvidas na cabeça. Ah, todo mundo tem isso… Sim, todos têm. E com ele não era diferente. Mas a dúvida gerada não pode tardar a ser resolvida, nem tampouco esquecida. Nada nem ninguém vai cuidar dela por você. Por isso tomou sua decisão. Nada de dúvidas, ele precisava de certezas. E iria atrás de respostas. Respostas para as perguntas que tanto o atormentavam.

Decidido, pegou um pedaço de papel e escreveu. Com firmeza nas mãos e um sentimento de resolução pulsando em seu peito. Aplicando tanta força no pedaço de papel, quebrou a ponta do lápis. Mas ele não seria mais necessário, já escrevera aquilo que precisava. Três palavras uma abaixo da outra, como em uma lista. Uma lista escrita em ordem de dificuldade. Do mais difícil pro mais fácil. Eram as três grandes dúvidas que ele precisava resolver. No papel surrado e amassado pela força das mãos decididas, lia-se:

FAMÍLIA

PESSOAS

EU

Ele encarou aquelas simples palavras por segundos. Simples, seriam elas, se não fossem tão complicadas. Simples talvez fosse para os outros. A complexidade daquele momento quase se abateu sobre ele, mas antes que fosse tomado por uma onde de animosidade, ele seguiu em sua decisão. Guardou sua lista no bolso da calça jeans e partiu para cumprir a primeira parte de sua missão. Começaria pelo mais difícil.

Na sala de Tv de sua casa, seus pais assistiam a um programa qualquer quando ele adentrou o aposento. Primeiramente eles não o notaram, bom, assim tinha alguns segundos a mais para planejar o que diria. Respirou fundo e se posicionou bem em frente a TV. Pronto, já tinha a atenção deles.

– O que foi meu filho? – indagou a mãe.

– Quero ter uma conversa muito importante com vocês. – disse. – Algo que preciso dizer a muito tempo. Chegou a hora de vocês saberem.

Os pais ficaram congelados, apenas encarando, esperando a tal revelação.

– Mãe. Pai. – ele olhou nos olhos de ambos. Respirou. – Eu sou gay.

Por um segundo nada aconteceu. Depois, a mãe correu para abraça-lo. Ela chorava. O pai encarava atônito. Mas não, espere. Não era choque, como ele imaginava encarar. Ele estava sim surpreso, mas não furioso ou desiludido como achou que o velho ficaria. E uma lágrima escorreu pelo rosto de seu progenitor enquanto ele deixava o aposento sem dizer palavras. A mãe ainda o abraçava e dizia palavras de aceitação e conforto que ele sequer ouvia. Foi como se o mundo tivesse parado naquele momento.

Enquanto conversava com sua mãe, ele pôde finalmente riscar a primeira palavra de sua lista.

FAMÍLIA

PESSOAS

EU

E só depois de riscá-la, ele teve percepção de muitas coisas. Coisas que eram visíveis, mas ele não notara antes. Como um pai, experiente, rodado, um homem que com sua idade era conhecido por ser um grande comedor de mulheres, não notaria que seu próprio filho é gay? Como pôde ser tão inocente a ponto de achar isso? A reação do pai não foi surpresa, ele apenas precisaria digerir a informação, mas sempre soube. Assim, ele percebeu que na verdade sua lista foi feita na ordem de dificuldade, só que ao contrário. O que julgava ser o mais difícil, na verdade era o mais simples. E que a aceitação da família e dos outros, no final das contas, é só consequência de sua própria aceitação. E antes mesmo de sua mãe terminar de falar, ele já havia riscado a segunda palavra de sua lista.

FAMÍLIA

PESSOAS

EU

Sobrando assim, apenas um item em sua lista. O item mais difícil.

– Mas me diga, meu filho, o que você vai fazer agora? – ele pensou.

– Eu quero me libertar.

Moves like jagger – Maroon 5

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Por @Rico_Correia mais em Scrotos – Breja & Ressaca

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Já tinham passado das 2 da manhã, todas as amigas dela já estavam ou arranjadas com alguém ou bêbadas demais para conseguir qualquer coisa, enquanto ela estava ali, insistentemente sóbria e sozinha. Decidiu, após vês um babaca se movendo de uma forma andrógena e um tanto constrangedora na pista de dança, que talvez ficar alcoolizada era melhor escolha. Olhou para amiga que iria dirigir e se certificou que ela era uma das que estavam arranjadas e sóbrias e partiu em direção ao bar para tomar algo.

– Uma cerveja, se tiver Ale melhor.
– Olha só, além de bonita tem bom gosto pra cerveja?

Ela não tinha virado pra ver quem era ainda, mas algo em seu subconsciente sabia o que esperar. Bingo, o babaca da pista, ele a encarava com um sorriso franco, simplório e um tanto irritante. O cara acabava de se mexer como um ragdoll em uma máquina de lavar e ainda assim olhava pra ela como se fosse o Zé Mayer encarando alguma mulher chamada Helena.

– Se importa se eu te copiar ? – sem aguardar a resposta se virou para o garçom – Hey campeão, me da um Ale também, no Pint se for possível e um whisky com gelo. – então devolveu a atenção para ela – Me de um monóculo, um chá e um relógio de bolso e me chame de Sir.

Novamente este sorriso irritante, a piada em si foi uma bosta, do que este cara tanto ri? Ele não é bonito, não é engraçado é um tanto quanto bobo na verdade. Ok, ela já estava pronta, ele viria com meia dúzia de cantadas idiotas, ela iria sorrir ser educada e se livrar dele o mais rápido possível. Finalmente as bebidas chegaram. Ah engraçado colocaram a cerveja dela num Pint também, agradeceu a cerveja levantou um brinde com o Babaca e seguiu eu caminho deixando ele assobiando ao ritmo da música e na verdade um tanto frustrada pelo cara não ter tentado nada, não que quisesse alguma coisa, apenas se sentiu diminuída.

Que grande noite, sóbria, sozinha e agora nem o Babaca iria tentar nada. Olhou no relógio e não eram nem 3h da manhã ainda, pelo tanto que suas amigas estavam se divertindo não achava que iria sair de lá antes de estar clareando, resolveu então que precisava respirar um pouco e se dirigiu até um espaço aberto em uma varanda. Chegando lá encontrou duas de suas amigas completamente bêbadas conversando com o Babaca, que se mantinha a uma distancia de ambas segurando seus copos e dizendo coisas que faziam ambas se curvarem em gargalhadas. E quando a viu entrando ergueu seu Pint em direção a ela e começou a cantar.

– London calling to the underworld. Come out of the cupboard, all you boys and girls

As meninas não entenderam nada, mas por algum motivo ela riu, no fim das contas o Babaca pelo menos gostava de 3 coisas boas, Cerveja, Whisky e The Clash.

– Acho que você está meio adiantada, eu tava pensando e tomar o chá só as 5.

– Não gosto de chá.

– Hum, isto é um problema.

– Problema?

– Sim, eu tinha preparado toda uma série de piadas relacionada a termos britânicos e já falhei logo na primeira. Porra, bom paciência – era assustador, irritante e um tanto charmoso o quanto que esse cara se portava de forma confiante – Vamos fazer assim, que tal você vir pra pista de dança comigo e curtirmos um pouco mais desta festa enquanto eu penso em piadas novas que com toda certeza vão te fazer pelo menos sorrir.

Ela não resistiu e já começou a sorrir dali. “O que afinal esse cara tem?”.

– Olha você vai me desculpar, mas se for pra você ficar dançando do jeito que estava a pouco, acho melhor não viu, aliás como você tem coragem de dançar daquele jeito..

Ele a encarou no fundo dos olhos, enquanto dava uma tragada no cigarro, assoprou a fumaça pro lado sem perder o contato visual.

– Eu vou te ensinar o meu segredo, é assim – ele chamou para que ela se aproximasse – Eu não me importo com que os outros pensam – e voltou a sorrir.

– Mas todo mundo estava rindo de você.

– Eu tenho pra mim que enquanto eu estiver me divertindo e não estiver fazendo mal a ninguém ta tudo certo e foda-se todas as pessoas que pensarem algo contrário num raio de 8km.

– 8 Km?

– 8 é um bom número, além do mais por mais que eu estivesse ridículo, funcionou, você prestou atenção em mim e aqui estamos – e de repente ela está a sorrindo junto com ele – Vem, vamos dançar. Olhe praquele casalzinho ali no canto com olhar julgador e imagine um foda-se pros dois, ta na hora de a gente se divertir, vou te ensinar uns movimentos que aprendi vendo o Micky tocando Jumpin Jack Flash. Que foi do que você ta rindo? Eu tenho a mesma habilidade de dança do Jagger.

Quinze minutos depois e pela primeira vez na noite, na verdade a primeira vez em anos, ela estava se divertindo de verdade.

Born this Way – Lady Gaga

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Por @Rico_Correia mais em Scrotos – Breja & Ressaca

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Ela se encontrava aninhada ao colo de sua mãe, chorando copiosamente, a mãe a consolava.

– Filha, não chore assim, você é linda a sua maneira, você não precisa tentar se parecer ou agradar ninguém.

A criança tentou encarar os olhos da mãe por alguns segundos, mas a lembrança de dezenas de crianças ao redor dela, apontando, rindo e puxando seus cabelos enquanto caçoavam dela sempre voltava. Ela não tinha culpa por ser diferente, ela nascera desse jeito, nem se achava diferente, até todas aquelas crianças evidenciarem isto a ela em forma de risadas e apelidos.

Sua única resposta a mãe foi mais uma cachoeira de lágrimas que embaçavam profundamente os olhos azuis da menina.

Horas depois, o pai chegou do trabalho e um simples olhar de relance do pai o lembrou de tudo que havia sofrido. Com os olhos ainda marejados e vermelhos, correu para longe da visão ainda ouvindo os apelidos maldosos e as risadas, se trancou no quarto no escuro, não ia ter coragem de encarar o espelho. Minutos depois o pai entrou no quarto

– Filha, posso entrar?

Ainda com a voz engasgada e úmida, a menina assente.

– A mamãe disse que você teve problemas? Que os meninos da escola ficaram rindo das suas sardas e do seu cabelo? – O pai começa a rir – Posso acender a luz?

– Não, eu sou feia papai, quero ficar no escuro pra sempre, assim ninguém vai ter que me ver de novo e nem vai poder me xingar.

– Filha, sabe por que você é diferente assim?

– Não papai, só sei que riram de mim, não quero saber, não quero que me vejam nunca mais, não quero mais sair daqui.

– Filha, você acha o papai feio?

– Não, pai.

– Então você é igual a mim. Você não nasceu diferente, presta atenção nenhum dos seus amiguinhos são iguais uns aos outros. Cada um é um pouquinho diferente em uma coisa ou outra. Você simplesmente é especial meu amor, não há nada de errado em você.

A esta altura a mãe havia chego, juntos, ela e o pai levaram a menina pro quarto deles e em frente ao espelho a mãe escovou o longo cabelo vermelho da menina até brilhar como se estivesse em chamas. Enquanto isso a menina contava detalhes pro pai de como haviam rido dela, e o pai ria dos meninos caçoando da besteiras e ensinando a menina a suportar a dureza do mundo com bom humor e um sorriso.

– Não se afete nem se ofenda com esses meninos filha, eles são todos uns bobos…

Anos depois, a menina agora uma mulher, caminhava pela rua mais decidida do que nunca. Não que nunca mais tenha chorado ou sofrido, coisas assim são inevitáveis, as pessoas tendem a magoar as outras por detalhes e diferenças, o sofrimento do outro mesmo que não lhe cause prazer algum, é o seu próprio sofrimento, o que se torna mais aceitável.

Um dos meninos que haviam caçoado dela anos antes cruzou com ela na rua, provavelmente não a reconheceu. Quem bate esquece, quem apanha nunca. Um assobio vindo da parte dele, algumas palavras até que um tanto chulas e sem jeito, mas que de alguma forma queriam dar sentido de elogio. Ela simplesmente jogou o cabelo e lembrou das palavras do pai e pensou consigo mesma. “Eu simplesmente nasci assim”.

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