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Por @TaianAoki mais no O Diário Semanal

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Felipe era médico recém formado.

Depois de muito suor, muito estudo, meses penando com o sofrimento da residência, ele estava, enfim, formado. Doutor Felipe. Assim o chamariam. E ele considerava justo o tratamento, visto todo o esforço que fizera para tê-lo. Fez o juramento de que ajudaria a qualquer um que precisasse sem qualquer tipo de distinção. E a felicidade batia com força em seu peito quando agarrava o canudo que continha seu diploma. Seu primeiro grande passo.

Marcos abandonou a faculdade ainda no primeiro ano. Não podia continuar mesmo que quisesse. Precisava ajudar na loja de seu pai que não andava bem da saúde e os estudos tomavam tempo demais. É claro que o velho rosnou e brigou, dizendo que não queria que o filho largasse os estudos, afinal o velho era ranzinza, mas havia ensinado Marcos muito bem a ser honesto e trabalhador. E ele não titubeou nem mudou de idéia. A saúde do pai era mais importante, e desde que passou a ficar em tempo integral as vendas iam melhores que nunca. Tudo ia bem.

E quando a guerra estourou os reservistas foram convocados para servir. Felipe se alistou em seu terceiro ano de faculdade, pois sonhava em fazer trabalho de campo em regiões mais pobres. Marcos foi puxado pelo exército por que não estava estudando. Nenhum deles imaginava que uma guerra pudesse acontecer. Felipe foi designado para ser médico geral de um hospital em campo de batalha. E Marcos, pobre Marcos, foi para a linha de frente. No dia da despedida dos soldados, as famílias de ambos estavam lado a lado, embora não se conhecessem. Pensamentos iguais passavam pela cabeça das mães.

– Deus, nós confiamos em você. Traga os garotos de volta pra casa de novo.

Lágrimas rolavam pelas faces daquelas desesperadas corujas que viam seus filhotes saindo debaixo de suas asas. E o semblante de preocupação deles não conseguia ser mascarado pelas palavras de conforto. Felipe já estava embarcando enquanto Marcos fazia um último desejo à sua mãe:

– Cuide bem do pai.

Marcos acorda assustado com o som das sirenes. Mais uma noite péssima de sono sendo finalizada com o alarme de ataque. Mais uma vez, ele pensa, pode ser meu último dia vivo. Rapidamente ele se apronta para a batalha. Seu rifle o acompanha, pesado e carregado, pronto para cuspir bolas de fogo. Dessa vez iriam cobrir um ataque à Rua da Esperança. Marcos se ri quando ouve o nome. Por que a vida era tão irônica?

Felipe não tinha descanso. Fazia três dias que não dormia, mas parecia uma eternidade. A todo o momento chegavam pessoas feridas a tiros, e não apenas aliados. Dezenas e dezenas de civis eram levados ao hospital com ferimentos diversos causados pela guerra. Felipe não negava ajuda a ninguém. Até arrumou uma briga feia com seu general ao ser acusado de traição por ajudar um soldado inimigo que apareceu no hospital ferido. Ele tinha feito um juramento. Naquele dia, o hospital da Rua da Esperança estava mais calmo do que o normal. E aquilo não parecia bom. Então a sirene toca.

Quando Marcos chega à Rua da Esperança, os inimigos já estavam posicionados. A troca de tiros começa instantaneamente. E o caos toma conta da rua. Em poucos segundos a rua se transforma num verdadeiro inferno.

Felipe se recusa a abandonar o hospital. Ele, um médico e mais meia dúzia de assistentes decidem ficar até o final. O general responsável e tantos outros “soldados” fogem ao ouvir a sirene. E a correria no hospital aumenta. Agora sim, ele pensa, parece um dia normal. Os feridos começam a aparecer. Alguns soldados que entram carregando amigos feridos aproveitam e deixam Felipe a par do que está acontecendo. Eles estavam desviando as tropas inimigas que iam em direção ao hospital. Felipe continua correndo. Quando entram dois soldados apoiados um no outro. Um deles tomou um tiro no baço. Tarde demais para ele, pensa Felipe. O outro tomou um no ombro. Ele acomoda o que levou o tiro letal e aplica morfina. Ele pega a placa de identificação do soldado para poder chamá-lo pelo nome, como sempre fazia. A plaquinha dizia que o soldado se chamava Marcos.

– Marcos, você consegue me ouvir? – o outro faz que sim com a cabeça com muito pesar. – Eu vou lhe aplicar um pouco mais de morfina para a dor passar.

E Felipe se lembra dele. Estavam juntos no dia do embarque. É quando um barulho diferente das explosões de granada e dos tiros de rifle toma conta da cena. Um barulho mais alto. Em todos os sentidos. O barulho vinha de cima.

– A.. a… – tentava dizer Marcos. Felipe tentou acalmá-lo;

– Acalme-se, não tente fazer esforço. – Marcos agarra Felipe pelo colarinho da farda e o puxa para bem próximo dele.

– A… aviões… co… corra…

O semblante de Felipe travou. Ele não esboçou reação nenhuma. Marcos apenas o empurrou com a pouca força que lhe restava nos braços e um último brado foi expelido pelos pulmões debilitados.

– CORRA!

Tarde demais para os dois. Os bombardeiros inimigos começaram o ataque. E o alvo era exatamente o hospital da Rua da Esperança. E o pedido das mães de Marcos e Felipe não seria realizado, por que na guerra os bons morrem jovens.

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