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Escrito por @RicoCorreiaUP leia mais em Miztureba

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Ele já fora grande, forte e competente, de seu trono atrás das muralhas de seu castelo, o mais imponente dos Reis. Hoje caminhava como pouco mais que um mendigo. Um rei sem trono, sem reino, vivendo como pária em um reino distante. Longe daqueles com quem dividia uma vida, seus amigos mortos, aliados lhe deram as costas e aqueles que lhe juraram fidelidades o haviam traído, aprendeu a respeitar um novo lema da pior maneira possível, repetia seu novo mantra incessante pelas ruas ”Confie e será traído, se descuide e será morto”.

As pessoas o olham estranho, muito sabem quem ele é, ou melhor quem ele foi, mas ninguém comenta. Ele poderia ser assassinado a qualquer momento, mas um pária enlouquecido e sem herdeiros nada pode fazer. Seu ódio não atravessa as muralhas da Fortaleza.

Anos antes da traição gerou dezenas de filhos. Com a rainha, morta no parto do último, apenas 3, mas seus bastardos somavam pelo menos 4 vezes este número. Poucas meninas dentre eles. Gerava rapazes fortes, seu herdeiro desde muito pequeno tinha porte real, coisa que o fez se descuidar ainda mais, morreria e deixaria um herdeiro que havia nascido para ser Rei, com irmãos para ajudá-lo. O garoto com pouco mais de 12 anos se portou como um príncipe até o fim, quando os rebeldes o executaram depois de matarem até o ultimo bastardo.

Hoje aquele que já fora rei perdeu tudo. Perdeu suas posses, perdeu sua família e pouco restou de sua dignidade. As mulheres que ansiavam pra esquentar sua cama, hoje evitavam passar os olhos por ele. Seu ódio era a única coisa que não havia perdido. Sentando em uma poça, ele odiava todas aquelas pessoas que o tratavam como estranho, muitas das quais já foram a seus pés suplicar justiça, e ainda o tratavam hoje como estranho.

Fechou-se mais em torno da capa ensopada que usava tentando se proteger da chuva. Ninguém o incomodava, mas o evitavam. Ele pegava aquilo que queria, de onde queria, mas só o suficiente para viver, não queria mais governar uma pátria de traidores, mas não tinha para onde ir, ficou por perto. Sentou-se ao lado de uma poça e chegou a uma conclusão.

“Não sou eu o estranho aqui. Eles que são, todos eles”.

Fechou-se em sua capa e seu ódio sentado em um canto. Odiava os estranhos.

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