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Por @Rico_Correia mais em Scrotos – Breja & Ressaca

Ouça enquanto lê

 

Ela se encontrava aninhada ao colo de sua mãe, chorando copiosamente, a mãe a consolava.

– Filha, não chore assim, você é linda a sua maneira, você não precisa tentar se parecer ou agradar ninguém.

A criança tentou encarar os olhos da mãe por alguns segundos, mas a lembrança de dezenas de crianças ao redor dela, apontando, rindo e puxando seus cabelos enquanto caçoavam dela sempre voltava. Ela não tinha culpa por ser diferente, ela nascera desse jeito, nem se achava diferente, até todas aquelas crianças evidenciarem isto a ela em forma de risadas e apelidos.

Sua única resposta a mãe foi mais uma cachoeira de lágrimas que embaçavam profundamente os olhos azuis da menina.

Horas depois, o pai chegou do trabalho e um simples olhar de relance do pai o lembrou de tudo que havia sofrido. Com os olhos ainda marejados e vermelhos, correu para longe da visão ainda ouvindo os apelidos maldosos e as risadas, se trancou no quarto no escuro, não ia ter coragem de encarar o espelho. Minutos depois o pai entrou no quarto

– Filha, posso entrar?

Ainda com a voz engasgada e úmida, a menina assente.

– A mamãe disse que você teve problemas? Que os meninos da escola ficaram rindo das suas sardas e do seu cabelo? – O pai começa a rir – Posso acender a luz?

– Não, eu sou feia papai, quero ficar no escuro pra sempre, assim ninguém vai ter que me ver de novo e nem vai poder me xingar.

– Filha, sabe por que você é diferente assim?

– Não papai, só sei que riram de mim, não quero saber, não quero que me vejam nunca mais, não quero mais sair daqui.

– Filha, você acha o papai feio?

– Não, pai.

– Então você é igual a mim. Você não nasceu diferente, presta atenção nenhum dos seus amiguinhos são iguais uns aos outros. Cada um é um pouquinho diferente em uma coisa ou outra. Você simplesmente é especial meu amor, não há nada de errado em você.

A esta altura a mãe havia chego, juntos, ela e o pai levaram a menina pro quarto deles e em frente ao espelho a mãe escovou o longo cabelo vermelho da menina até brilhar como se estivesse em chamas. Enquanto isso a menina contava detalhes pro pai de como haviam rido dela, e o pai ria dos meninos caçoando da besteiras e ensinando a menina a suportar a dureza do mundo com bom humor e um sorriso.

– Não se afete nem se ofenda com esses meninos filha, eles são todos uns bobos…

Anos depois, a menina agora uma mulher, caminhava pela rua mais decidida do que nunca. Não que nunca mais tenha chorado ou sofrido, coisas assim são inevitáveis, as pessoas tendem a magoar as outras por detalhes e diferenças, o sofrimento do outro mesmo que não lhe cause prazer algum, é o seu próprio sofrimento, o que se torna mais aceitável.

Um dos meninos que haviam caçoado dela anos antes cruzou com ela na rua, provavelmente não a reconheceu. Quem bate esquece, quem apanha nunca. Um assobio vindo da parte dele, algumas palavras até que um tanto chulas e sem jeito, mas que de alguma forma queriam dar sentido de elogio. Ela simplesmente jogou o cabelo e lembrou das palavras do pai e pensou consigo mesma. “Eu simplesmente nasci assim”.

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