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Por  @TaianAoki mais em Scrotos – Breja & Ressaca

ouça enquanto lê


Dúvidas na cabeça. Ah, todo mundo tem isso… Sim, todos têm. E com ele não era diferente. Mas a dúvida gerada não pode tardar a ser resolvida, nem tampouco esquecida. Nada nem ninguém vai cuidar dela por você. Por isso tomou sua decisão. Nada de dúvidas, ele precisava de certezas. E iria atrás de respostas. Respostas para as perguntas que tanto o atormentavam.

Decidido, pegou um pedaço de papel e escreveu. Com firmeza nas mãos e um sentimento de resolução pulsando em seu peito. Aplicando tanta força no pedaço de papel, quebrou a ponta do lápis. Mas ele não seria mais necessário, já escrevera aquilo que precisava. Três palavras uma abaixo da outra, como em uma lista. Uma lista escrita em ordem de dificuldade. Do mais difícil pro mais fácil. Eram as três grandes dúvidas que ele precisava resolver. No papel surrado e amassado pela força das mãos decididas, lia-se:

FAMÍLIA

PESSOAS

EU

Ele encarou aquelas simples palavras por segundos. Simples, seriam elas, se não fossem tão complicadas. Simples talvez fosse para os outros. A complexidade daquele momento quase se abateu sobre ele, mas antes que fosse tomado por uma onde de animosidade, ele seguiu em sua decisão. Guardou sua lista no bolso da calça jeans e partiu para cumprir a primeira parte de sua missão. Começaria pelo mais difícil.

Na sala de Tv de sua casa, seus pais assistiam a um programa qualquer quando ele adentrou o aposento. Primeiramente eles não o notaram, bom, assim tinha alguns segundos a mais para planejar o que diria. Respirou fundo e se posicionou bem em frente a TV. Pronto, já tinha a atenção deles.

– O que foi meu filho? – indagou a mãe.

– Quero ter uma conversa muito importante com vocês. – disse. – Algo que preciso dizer a muito tempo. Chegou a hora de vocês saberem.

Os pais ficaram congelados, apenas encarando, esperando a tal revelação.

– Mãe. Pai. – ele olhou nos olhos de ambos. Respirou. – Eu sou gay.

Por um segundo nada aconteceu. Depois, a mãe correu para abraça-lo. Ela chorava. O pai encarava atônito. Mas não, espere. Não era choque, como ele imaginava encarar. Ele estava sim surpreso, mas não furioso ou desiludido como achou que o velho ficaria. E uma lágrima escorreu pelo rosto de seu progenitor enquanto ele deixava o aposento sem dizer palavras. A mãe ainda o abraçava e dizia palavras de aceitação e conforto que ele sequer ouvia. Foi como se o mundo tivesse parado naquele momento.

Enquanto conversava com sua mãe, ele pôde finalmente riscar a primeira palavra de sua lista.

FAMÍLIA

PESSOAS

EU

E só depois de riscá-la, ele teve percepção de muitas coisas. Coisas que eram visíveis, mas ele não notara antes. Como um pai, experiente, rodado, um homem que com sua idade era conhecido por ser um grande comedor de mulheres, não notaria que seu próprio filho é gay? Como pôde ser tão inocente a ponto de achar isso? A reação do pai não foi surpresa, ele apenas precisaria digerir a informação, mas sempre soube. Assim, ele percebeu que na verdade sua lista foi feita na ordem de dificuldade, só que ao contrário. O que julgava ser o mais difícil, na verdade era o mais simples. E que a aceitação da família e dos outros, no final das contas, é só consequência de sua própria aceitação. E antes mesmo de sua mãe terminar de falar, ele já havia riscado a segunda palavra de sua lista.

FAMÍLIA

PESSOAS

EU

Sobrando assim, apenas um item em sua lista. O item mais difícil.

– Mas me diga, meu filho, o que você vai fazer agora? – ele pensou.

– Eu quero me libertar.

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