Big City Nights – Scorpions

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Por @Rico_Correia mais em Scrotos – Breja & Ressaca

Ouça enquanto lê

– Caralho, que dia longo.

Espreguiçou-se, deixando para trás um dia a mais de trabalho e tendo a frente um dia
mais próximo ao final de semana, caminhava sem pressa ladeando a avenida movimentada
do prédio onde passara a maior parte da sua vida. A correria de seu dia-a-dia fez com que ele
aprendesse a dar valor a pequenos detalhes do mundo. Sair antes de cair à noite, por exemplo,
era motivo mais do que justo para ostentar um sorriso, e obviamente caminhar curtindo o por
do sol ao invés de se espremer em um ônibus apinhado.

Com um fim da tarde e início da noite um frio repentino se apossa do mundo e ele
pego desprevenido se enrola em seu casaco fino e bate as mãos contra os braços numa
tentativa de se esquentar. Pensou que provavelmente tivera feito uma péssima escolha, e
por um segundo sua mente escapou pra uma outra noite naquela cidade imensa. Um outro
engano.

Ela estava em um bar, um rock bar pra falar a verdade, 11h da noite, ele havia saído
de casa com dois objetivos na cabeça, tomar alguns chopps e ouvir uma boa música, não
importava se fossem covers. Vestiu suas calças jeans escolheu uma camiseta preta aleatória
(que acabou por descobrir quando já estava no corpo que era do álbum, mas eis que estava
parado em frente a 3 bares vizinhos sem se decidir aonde entrava, cover de Whitesnake,
cover de Def Leppard ou…não tinha mais dúvidas, uma ruiva estonteante cercada de algumas
amigas, usava calças de couro, um corpete de onça com uma jaqueta jeans coroada por
uma longa cascata vermelha. Em um sorriso ela fez o que nenhum dos promoters das casas
conseguiu. Fez com que ele tomasse uma decisão.

Tinha plena certeza do que queria fazer, não sabia como nem por que, mas sabia o
que queria. Entrou no bar e foi direto ao balcão, pediu um Jack Daniels e um copo de chopp,
bebeu o Bourbon de um gole e degustando seu chop foi atrás daquela deusa cobreada. Rodou
pelo bar durante uma meia hora enquanto o show estava para começar. Ele estava no seu
terceiro copo e nada da mulher. Engoliu que talvez tivesse tido só uma impressão errada da
ruiva, talvez ela nem tivesse entrado no bar. A banda começou a tocar e ele ouviu uma voz
próxima ao seu ouvido gritando para a banda. Havia começado o show com Dead or Alive do
Bon Jovi.

– LIKE A SIN!

Por um momento se assustou e quando olhou pro lado a ruiva estava lá sorrindo, ficou
sem reação por algum tempo observando de perto o sorriso que havia levado ele pra dentro do
bar. E para sua surpresa a banda começou a tocar a música que ruiva havia pedido. O sorriso
dela ficou ainda maior e mais bonito.

– Eu conheço o pessoal da banda, entenda isso como uma “homenagem” a sua camiseta.

Ele não conseguiu segurar o riso.

– Isto é novo para mim, mulheres lindas como você jamais me fizeram nenhum tipo de
homenagem.

– I Don’t Care

Ele foi obrigado a rir novamente.

– Vai passar a noite conversando através de glam rock?

Eles passaram a noite conversando e apenas conversando, beberam, riram,
curtiram boa música juntos, ela riu do tanto que ele gostava de Bon Jovi, ele se
surpreendeu do tanto que ela gostava de Scorpions. O papo fluiu fácil e os interesses em
comum pareciam não acabar, entretanto não trocaram nomes, telefones nem nada,

conversaram sobre o momento e sobre gostos, mas não sobre eles. Quando ele
perguntou o que ela fazia da vida. A resposta dela foi um tanto enigmática:

– O que eu faço não define o que eu sou.

Nunca mais se falaram, nunca mais a encontrou (descobriu que ela não conhecia
de fato a banda), mas naquela noite encontrou um motivo para sair em noite agradáveis
e visitar bares como aquele. Podia não encontrar ela novamente, mas sempre conhecia
pessoas novas e interessantes, em uma cidade tão grande jamais se conhece todo mundo.

Um vento gelado o trouxe de volta ao presente, já estava quase em casa e
chegou à conclusão que era uma boa noite para se sair novamente.

– É aquela noite não foi um engano. Adoro as noites desta cidade. Provavelmente algo grande está a minha espera – outra corrente gelada de vento – Talvez só precise pegar uma blusa.

Chop Suey – System of a Down

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Por  @TaianAoki mais em Scrotos – Breja & Ressaca

ouça enquanto lê

Uma vida de mentiras. É triste chegar a uma certa idade e perceber que todos os bons momentos que você passou na verdade foram meras encenações e que você era o único que realmente se sentia bem. Com o tempo você acaba percebendo onde as coisas não fazem sentido.

Nunca entendi por que meus pais sempre me trataram tão mal em comparação aos meus outros irmãos. Xingamentos eram comuns. Eu era o único da família que apanhava. De cinta. Mesmo quando meus irmãos me provocavam primeiro. Não entendia por que nunca me dei bem no trabalho, mesmo tendo me dedicado muito à empresa. Pessoas mais novas, menos competentes ocupavam cargos de liderança, e eu estagnado. E por que meu casamento era baseado em brigas e mentiras. Mas é o que dizem sobre a vida. A gente não está aqui para entender, mas sim para viver. E é exatamente isso que eu decidi fazer a partir de hoje.

– Acorde.

– O que foi?

– Você devia passar um pouco de maquiagem, vai ajudar a esconder o seu espanto.

– Que espanto, Rodrigo, que merda é essa agora?

– Cadê a chave do meu carro?

– Em cima da mesa.

– Por que você deixou em cima da mesa?

– Que caralho, Rodrigo, o que ta acontecendo?

– Por que você deixou a porra da chave em cima da mesa!? Não me venha com essas fábulas que só você tem a capacidade de inventar. Você nem deveria ter saído de casa ontem.

– Ta, mas eu saí. Que palhaçada é essa, hein?

– Eu vou embora.

– Como assim, vai embora? Você ficou maluco?

– Maluco eu estaria se ficasse mais um dia nessa casa. Você pode ficar com ela pra você.

Aquela maquiagem que eu sugeri ia cair bem nela agora. Nem ao menos me virei enquanto ela gritava meu nome não entendendo nada. Pela primeira vez na vida ela estava na minha pele. Não era apenas um blefe, como ela imaginava ser. Eu realmente ia embora pra nunca mais voltar.

Uma vida de mentiras. Existem coisas que estão além de nossas possibilidades e não importa o quanto você se esforce para tentar mudá-las, elas nunca mudarão. Foi assim com uma família que me abandonou quando eu era apenas um bebê. Sempre foi assim com uma família que me adotou pelo dever e nunca me amou de verdade. Foi assim com um trabalho que não me dava os devidos créditos por motivos pessoais do meu patrão. E foi assim durante todo um casamento no qual minha mulher dormia com meu chefe. Esse tipo de coisa nunca muda, não adianta meu esforço. O que tem que mudar é a outra ponta desse cabo de guerra. A minha ponta.

Por isso hoje acordei pronto para tomar decisões que não são fáceis. Por mais que muitos tivessem me abandonado pelo caminho – pai, mãe, irmãos – eu sempre fui muito correto em meus princípios. E isso foi me passando cada vez mais para trás. É triste saber que para crescer na vida e realmente ser feliz às vezes você precisa deixar de lado uma parte de si próprio e fazer coisas que envenenam sua alma. Mas do contrário eu nunca teria paz. Digo isso por minha mulher. Ela não aceitaria o fato de ser simplesmente abandonada sem tentar me arrancar cifras altas por isso. Não aceitaria até ver as fitas que eu deixei na mesa, com belas imagens dela dando gostoso pro meu patrão na nossa cama. Como ela bem sabe, adultério anula qualquer casamento, afinal, aceitou se casar com um advogado e dar à reveria para outro.

Algumas coisas são duras de fazer e não são compreendidas pela maioria. Eu mesmo chorei ao ver uma parte que acho tão bela de mim morrendo dessa maneira. Mas a verdade é que ela mereceu morrer. E levou consigo todo um passado manchado por mentiras vergonhosas e sofrimento sem igual. No final das contas foi um suicídio justo.

Back in Black – AC/DC

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Por  @TaianAoki mais em Scrotos – Breja & Ressaca

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http://www.youtube.com/watch?v=CwIvBNsSywQ

– É o Angus. Abram pra mim, seus lixos.

Ver aquela figura franzina e mal trajada como de costume no alto dos seus 1,60 de altura era assustador, por menos ameaçadora que ela pudesse parecer. Parado ali na sala de espera do estúdio improvisado ele parecia personagem de um mundo imaginário saído de dentro de um livro. Johnny até tocou nele como quem não acreditasse no que os olhos viam.

– Sou eu mesmo, porra! – parou e olhou pros demais. – Que foi caralho!? Parece que vocês viram um fantasma.

E de fato viam. Mas era um fantasma de verdade, ou pelo menos, julgavam ser um fantasma. Daqueles bem apavorantes.

– E aí, como andam as coisas? Estão ensaiando ainda?

– Mano, como assim como andam as coisas? Por onde você andou?

– É uma longa história…

E de fato era longa mesmo. Longa e dura de acreditar. Com passagens mirabolantes que envolviam drogas novas, prostitutas armadas, traficantes ticanos, carros conversíveis e até travestis, enfim, era mais fácil crer que ele tinha mesmo morrido e sido expulso do inferno, por isso estava de volta.

-… mas isso não é importante, quero saber como está a banda. Vocês ainda sabem tocar né? Por que eu to cheio de ideias novas para as letras do cd novo?

– Mas que porra de cd novo? Você tava morto até meia hora atrás!

– Não estou mais como vocês podem ver. Isso tudo é alegria em me ver ou vocês estão com preguiça e trabalhar hein?

– Caralho Angus, a banda tinha acabado, a gente tava juntando as coisas pra vender o estúdio.

– Vocês tão loucos!? O novo cd vai ser o mais genial da história da música. Vamos vender que nem água.

Os demais não conseguiam falar nada. Quer dizer que o cara some por quatro meses inteiros, é dado como morto por toda a imprensa e até pela família e de repente volta das profundezas do inferno dando ordens? Quer dizer, o que mudou nesses meses que ele sumiu? Porra nenhuma…

– Angus – arriscou Johnny. – eu não sei se isso está certo. Olha, você sumiu sem dar a menor satisfação pra gente, cara, você deixou a gente na mão! Pensamos que tinha morrido, mas não, você tava numa aventura louca com cowboys do asfalto e prostitutas! Não sei se quero fazer parte disso…

– Ótimo, então achamos outro baixista. – profanou Angus. Johnny, assim como todos os outros, permaneceu quieto. – Já falei que isso tudo vai servir de inspiração pro novo álbum. Que vai ser antológico.

– E como vai se chamar isso? – arriscou Rick com sua guitarra ainda em punhos. – As aventuras de Angus?

O baixinho se riu.

– Ta mais para “Back in Black”. – os demais se entreolharam. Agora tinham certeza que ele havia voltado do inferno.